Facebook recria TikTok no Instagram, co-fundador do Telegram critica estratégia dos EUA

Para Pavel Durov, a vontade dos EUA de banir o TikTok abre um “precedente perigoso que pode eventualmente fazer desaparecer a internet enquanto rede verdadeiramente global (ou o que resta dela)”.

Imagem via Shifter
 
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Há uns dias explicámos-te que a Microsoft estava a ponderar comprar o TikTok. Pressionada pela estratégia política norte-americana, terá iniciado negociações com a ByteDance, empresa chinesa proprietária da popular rede social de partilha de vídeos curtos, de modo a adquiri-la. Em causa estão preocupações por parte da Administração de Trump em relação à segurança da aplicação, considerada um instrumento de espionagem chinesa. Donald Trump queria banir o TikTok dos EUA mas a aquisição do serviço por parte da Microsoft é vista com bons olhos.

Trump está, como explicámos neste artigo, preocupado com o crescente domínio por parte da China na área tecnológica – primeiro foi com a Huawei, que se tornou um player importante no 5G enquanto crescia também no mercado de smartphones; agora com a ByteDance e o TikTok, uma rede social em crescimento acelerado a nível global. Quem também tem estado atento ao TikTok é Mark Zuckerberg, que o vê como uma ameaça ao Instagram. Na verdade, as duas aplicações tornaram-se extremamente populares como as redes sociais da próxima geração, nomeadamente entre os mais jovens; o Instagram conseguiu esse estatuto mais cedo, tendo as Stories contribuído para tal.

Aliás, com o Instagram, Zuckerberg tem conseguindo manter o Facebook-empresa na ribalta. O Facebook-aplicação entrou em declínio e os mais novos começaram a olhar para a promissora app de partilha de fotos. O primeiro passo para garantir o domínio do Facebook no mercado de redes sociais foi dado em 2012 quando a empresa comprou o Instagram por mil milhões de dólares; em 2016, o Snapchat tornava-se popular e Zuckerberg decidiu copiar as suas principais funcionalidades, incluindo as Stories, para o Instagram. Hoje é difícil imaginar o Instagram sem Stories, definitivamente uma das suas funcionalidades mais usadas.

Reels: a cópia americana perfeita do TikTok

O caminho do Instagram para o sucesso tinha ficado consolidado mas mais recentemente, apareceu uma nova ameaça: o TikTok. O Facebook começou por tentar clonar a aplicação através do lançamento do Lasso, mas sem sucesso. Esta estratégia de clonagem não é nova: ainda antes de adquirir o Instagram, o Facebook lançou uma app chamada Facebook Camera para tentar replicar o sucesso do serviço de partilha de fotografias, e tentou fazer o mesmo com o Snapchat, com clones como o Facebook Poke.

Mark Zuckerberg já percebeu que é no Instagram que tem de apostar todas as fichas e ontem anunciou uma funcionalidade que é uma autêntica cópia do TikTok integrada na aplicação. O Reels é uma nova funcionalidade no Instagram que, para quem usa ou conhece o TikTok, será bastante familiar. Através da câmara da aplicação, é possível criar vídeos curtos, adicionar músicas e efeitos, e editar minimamente esse clip à lá TikTok. Os reels ficam acessíveis no perfil dos utilizadores num novo separador e aparecem também no feed. Além disso, quando se clica num reel, é possível (tal como acontece no TikTok), deslizar para cima para ver outros reels.

O novo Instagram Reels (imagem via Instagram)

Os Reels podem tornar-se tão populares como as Stories se tornaram. Para Trump, deverão ser uma boa notícia: são tecnologia norte-americana que mantém os dados dos utilizadores nos EUA, fora do alcance do Partido Comunista Chinês, e que pode roubar terreno ao chinês TikTok. Para a Microsoft, pode complicar o negócio, uma vez que a entrada do gigante Facebook pode levar ao desinteresses dos utilizadores e quebrar a tendência de crescimento do TikTok – tal como aconteceu com o Snapchat depois do lançamento das Instagram Stories.

Co-fundador do Telegram critica EUA

Pavel Durov é co-fundador do Telegram, aplicação de chat russa que concorre com o norte-americano WhatsApp. No seu canal público de Telegram, costuma partilhar algumas reflexões sobre o que se passa no mundo globalizado da internet, quase sempre com um tom político; e sobre a questão do TikTok e dos EUA decidiu não se ficar pelo silêncio. “Percebo porque é que o Governo dos EUA ameaça banir o TikTok a não ser que os seus activos sejam vendidos a investidores norte-americanos. Na verdade, a China bane praticamente todas as apps não-chinesas de redes sociais do seu território. Porque haveria o resto do mundo, incluindo os EUA, de permitir uma aplicação chinesa nos seus mercados? Se queres ter acesso aos mercados de outros países, deves abrir-lhes o teu mercado – isso seria justo”, começou por escrever.

Pavel Durov, co-fundador do Telegram, na conferência TechCrunch Disrupt SF 2015 (foto de Steve Jennings/TechCrunch via Flickr, CC BY 2.0)

Durov refere de seguida que esta jogada dos EUA abre, no entanto, um “precedente perigoso que pode eventualmente fazer desaparecer a internet enquanto rede verdadeiramente global (ou o que resta dela)”. O co-fundador do Telegram refere que anteriormente só países autoritários como o Irão, a China e a Rússia forçavam as empresas de tecnologia a vender as partes dos seus negócios a investidores com proximidade aos respectivos Governos. Durov acrescenta que o Telegram já foi pressionado a vender as suas operações em determinados países a players locais – como aconteceu com a Uber na Rússia e na China, por exemplo –, mas que rejeitou sempre fazê-lo. “Não vamos vender o Telegram – nem parcial, nem totalmente. Esta vai ser sempre a nossa posição”, disse.

“O problema com o caso US-TikTok é que ele legitima uma táctica de extorsão anteriormente empregada apenas por regimes autoritários. Durante décadas, os Estados Unidos foram vistos como defensores do livre comércio e da liberdade de expressão. Mas agora que a China começou a substituí-los como o principal beneficiário do comércio global, os EUA (ou pelo menos a Administração de Trump) parecem ter ficado menos entusiasmados com esses valores. Isso é lamentável, porque mil milhões de de pessoas neste planeta ainda gostam da ideia de um mundo aberto e conectado”, escreveu. E concluiu pouco depois: “Em breve, todos os grandes países vão provavelmente usar o pretexto da ‘segurança nacional’ para fracturar empresas de tecnologia internacionais. E ironicamente, são empresas norte-americanas como o Facebook e a Google quer provavelmente mais perderão com as consequência disso.”

Em suma, o futuro do TikTok pode ser o futuro da nossa internet global. Não sabemos ainda como será o negócio da Microsoft com a ByteDance – só em Setembro –, nem se o Reels será um sucesso como foram as Stories no Instagram. Não sabemos tão pouco, como aponta Durov, que consequências poderão existir com esta pressão cada vez maior dos EUA em relação às tecnologias e serviços digitais vindos da China, não só para os dois países, mas sobretudo para todo o mundo e outros Governos.

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