Como fazer um livro de forma independente

O meu nome é Alex Couto e quis o destino que tivesse um pequeno livro cor-de-rosa a bater bem mais do que esperava. Nova Lisboa. Não creio que tenha mudado a minha vida, mas ajudou-me a ficar mais seguro das minhas opções editoriais para o futuro.

Foto de Mário Rui André/Shifter
 
O Shifter precisa de dinheiro para sobreviver.
Se achas importante o que fazemos, contribui aqui.

Olá a todos e obrigado por terem vindo à minha TED Talk. O meu nome é Alex Couto e quis o destino que tivesse um pequeno livro cor-de-rosa a bater bem mais do que esperava. Nova Lisboa. Não creio que tenha mudado a minha vida, mas ajudou-me a ficar mais seguro das minhas opções editoriais para o futuro. É por isso que vou aproveitar este convite do Shifter para partilhar alguns conselhos sensatos que possam ajudar à produção da tua própria obra independente. Preparados? Então vamos a isso.

Independente, porquê?

Uma questão difícil — ou se calhar não! Eu escolho este caminho porque não tive paciência para procurar a chancela editorial mais adequada para este projecto. Conheço várias, até sigo alguns catálogos com bastante atenção, mas não achei que esta obra fizesse sentido em nenhum dessas editoras. Confesso que também queria contrariar aquela entrada de blogue da Maria do Rosário Pedreira em que ela quase insulta quem se decide por este caminho. Se a maior editora portuguesa está contra, parece-me bem que enquanto escritor jovem mostre o porquê de não concordar, em vez de simplesmente o dizer — como naquela máxima escrita do show, don’t tell”, mas aplicada à vida. Acredito que a forma mais fácil de um artista comunicar com a sua audiência é através de estar disponível para ela. Uma publicação deste género implica um contacto directo com pessoas diferentes de mim e que expandem a minha própria percepção do mundo. Chamo-lhe rebentar a bolha.

Na verdade, queria escrever sobre ataques terroristas a quem está a destruir as tascas, sobre um vampiro que investiu no imobiliário em Lisboa e sobre como a impossibilidade de viver na cidade me fez voltar a olhar para ela como um grande amor. Não me pareceu que editores de renome tivessem muito interesse nisso, mas sabia que a publicação desta colectânea de textos poderia demonstrar um ponto de vista algo revoltado com a situação do imobiliário em Lisboa. Neste caso, estava frustrado com a gentrificação, e achei que a publicação de um projecto literário podia ser uma manifestação quase política desse desagrado. Informado por um livro sobre como a publicação independente é uma ferramenta política (que aproveito para agradecer ao Horácio Frutuoso), cheguei-me à frente com esta forma de edição.

Se acho que pus a minha carreira literária tradicional em cheque com esta decisão? Talvez, mas qual era a minha carreira literária tradicional se continuasse sem publicar? Apenas uma miragem alimentada por um estado de espírito optimista, mas desligado da realidade. A edição independente pode ser uma questão política ou de conveniência. No meu caso, foi uma questão de anarquia e inconveniência.

Estreámos o nosso Podcast! Sabe mais sobre a nossa ‘Reunião Editorial’

Alerta: Independente para mim é muito diferente de Chiado Editora. Eu acredito que uma vanity-press possa ter uma função, mas preferi fazer tudo por conta própria e com a minha equipa do que ter pago à Chiado o valor que pedem para a publicação de uma primeira edição e pronto. São escolhas, não estou aqui para julgar, apenas para justificar as minhas.

O texto em si

Acerca do texto não tenho muito a dizer-te. Algo de excepcional deve existir na tua criação para sentires a necessidade urgente de a tornares um objecto físico. De livros já o mundo está cheio e se o estás a fazer por qualquer motivo para além da mera vaidade, quem sou eu para criticar as tuas ambições materiais.

Ainda assim, tenho alguns conselhos. Eu partilhei o meu texto com uma série de amigos pessoais numa fase ainda embrionária, para ter a visão deles do que achavam da obra. Estava preocupado sobretudo com ambiente (chamemos-lhe o mood, como o Todd Phillips diz acerca da verdadeira função do realizador) e com a sua organização e estrutura.

Óbvio será dizer que encontraram muitos typos. Corrigi-os o melhor que consegui e voltei a ler tudo no fim. Infelizmente, uma mão cheia de falhas sobreviveram (divisões idiotas das palavras em quebras de linha e um typo horrível tipo “porque que que”).

View this post on Instagram

Obrigado a todos os que reservaram, partilharam e leram a minha Nova Lisboa. 💕Tenho recebido muitas mensagens a perguntar do que se trata. Vou tentar explicar aqui, o melhor que consigo. Eu nasci e fui criado no Bairro do Viso em Setúbal. Para mim, ter chegado ao Bairro da Lapa — mesmo quando tive de fazer paragens na Madragoa e Rua das Trinas — era um sonho tornado realidade, uma ideia de prestígio pela qual me apaixonei. O pequeno-almoço na Cristal, a amizade com a casa António Sérgio, a vista para a cúpula da Basílica, foram detalhes que se tornaram parte da minha vida. Quando soube, em Março deste ano, que a minha senhoria procurava um update no preço da renda, tanto que seríamos incapazes de o suportar, senti na pele a força da gentrificação. Logo eu, que até trabalhava para pagar aquela casa e aspirava com regularidade. A chicotada que senti foi tal que entrei em modo grande birra, mas não queria chatear os meus amigos com algo que me parecia tão pretensioso. Foi assim que voltei a olhar para a cidade, dez anos depois de me ter mudado, certo de que as mudanças eram inevitáveis, mas que também podiam ser deveras trágicas. Numa de não aborrecer ninguém, devo ter escrito cerca de cem textos sobre isto. E depois, ao olhar para eles e ao fazer esta selecção, encontrei a forma — um guia turístico e literário para uma Nova Lisboa. Acho que é isto, mas é sempre difícil escrever sobre algo que criámos. Obrigado a todos pela atenção.

A post shared by Alex Couto (@escritorfamoso) on

Recomendo-vos partilharem o texto quando o resultado já for final, para não arranjarem erros extra que podiam ter sido corrigidos. Foi a minha mãe que encontrou estes três últimos, imaginem a barraca. Para o meu próximo livro, um romance de maior volume, vou procurar um serviço de revisão profissional. Acho que vai ser um bom complemento às minhas leituras e que vai garantir uma análise com maior entendimento do texto e das minhas intenções com ele. Também acredito que a percepção de bons leitores (malta que leia em qualidade, mas também em volume) pode ser essencial para remover clichés, afinar a pontaria e depurar a essência do texto.

Produção Editorial

Ugh. Esta parte foi um filme. Convém dizer que foi a primeira vez na minha vida que tentei fazer algo do género, mesmo quando tenho anos de redactor publicitário na minha experiência profissional.

O que eu queria era um livro bonito, por isso comecei a pensar na capa. Falei com o meu amigo Ricardo Passaporte porque tenho plena noção de que a arte dele era a mais cara podre que conhecia. Isto resultou numa imagem que representava o que era o espírito do livro para mim, apesar de numa abordagem inicial muita gente ter ficado assustada com a provocação. Por motivos legais não vos posso dizer o que é, mas podem analisar por vocês próprios numa pesquisa de Google.

Uma vez com a imagem para a capa em minha posse, bati à porta de várias gráficas cool que me recomendaram. Infelizmente, nenhuma delas me apresentou um budget que eu conseguisse pagar sem ter de fazer um crédito pessoal. Se soubesse o que sei hoje, tinha seguido a dica da Gráfica 99 no Bairro Alto, mas só me deram este conselho quando já tinha os livros impressos. Se tiveres mais dicas de gráficas para mim, também aceito de bom grado. Acho que ganhamos todos se dialogarmos, sobretudo quando os escritores independentes não são inimigos uns dos outros, apenas criadores a tentar desenvolver a sua obra em paralelo com a sua própria vida.

A falta de opções de produção levou-me a recorrer a serviços de print on demand. Eu utilizei a Blurb, mas uma pesquisa de Google acerca das suas alternativas também permite encontrar outras opções. Após ter pedido a um designer gráfico para levar a cabo a tarefa da paginação, submetemos o ficheiro no site da Blurb de acordo com as especificações técnicas que eram sugeridas. Para mim, o pior deste serviço foi obrigar-me a ter um código de barras no livro com o seu ISBN, algo que não me fazia falta nenhuma numa edição tão underground.

Como sou burro, só na minha primeira feira literária é que descobri o que era o Depósito Legal. Apesar de ter feito uma graçola acerca dele no interior do livro, percebi que é uma ferramenta interessante para um escritor independente colocar o seu livro num circuito institucional. Segundo a Wikipédia, é a obrigação legal feita a editores para enviarem exemplares para um repositório como a biblioteca nacional. Eu não fiz isso e arrependo-me. Fica a dica.

Comunicação

Esta é a parte em que realmente posso falar com algum conhecimento de causa, porque para além de escritor independente já levo quase dez anos de publicitário. Eu sabia que o meu livro podia bater junto do meu público-alvo (identifica o teu, mesmo que sejam vários). Para isso direcionei a minha mensagem da forma mais estruturada que conseguia (reduzindo-a a headlines), através de um formato que facilita a partilha (publicações no feed de Instagram que podem depois ser republicados em stories).

Tinha uma estratégia consistente de lançar um poster com estas mensagens a cada três dias até ao meu lançamento, mas assim que comecei a ser muito partilhado na primeira publicação, tive de actualizar a estratégia em directo e comecei a publicar um todos os dias. Esta viralidade breve permitiu-me crescer cerca de quinhentos seguidores numa semana e alavancar uma série de vendas ainda antes do meu lançamento oficial.

Também colei estes posters na rua, com a ajuda do meu amigo Cláudio, que foi um autêntico herói na colagem e merece aqui um agradecimento público.

Lançamento

Em relação à preparação do lançamento, acho que as regras de ouro dos eventos ficam bem aqui. Enviar convite com antecedência (uma espécie de save the date, se assim preferirem). Enviar um reminder para confirmações. Criar uma decoração relacionada com o conceito do livro. Garantir que vão haver bebidas bacanas para quem vai só mandar uma pausa. Como estava a trabalhar com a Ana Krausz como minha PR, utilizei o espaço da agência dela e tive gráficos do livro desenhados no vidro pelo André Matos. Foi mais um detalhe que permitiu gerar conteúdo e converter esse evento físico em momento digital. Tudo isto deu óptimas fotos do Miguel Manso.

Um lançamento só é giro para o autor, mas vou ser sincero, o sucesso do meu tornou-o alta seca. Julguei que fosse ser um dia mesmo bacano para fumar uns cigarros vegan com algumas das pessoas que mais me apoiaram neste percurso marcado pela lentidão do processo, mas acabei a assinar autógrafos e escrever dedicatórias durante três horas. Quando acabei estava com uma dor de cabeça tão grande que ia caindo para o lado antes de chegar ao Ajitama.

Online

Este assunto está altamente relacionado com a secção seguinte, dedicada à logística.

Para vender um livro, é preciso tê-lo à venda em algum lado. Como escritor independente, há vários obstáculos para chegar às superfícies comerciais ideais. Nesta fase, ainda não sei como lá chegar, por isso vou deixar para um próximo artigo. O que posso fazer é explicar-vos o que fiz neste livro com a maior das sinceridades.

Coloquei um site on-line dedicado exclusivamente a este livro, onde coloquei uma secção explicativa dedicada a desconstruí-lo. Era complementada por algumas fotos do seu interior, para toda a gente perceber logo o que ia receber em casa, em caso de encomenda. Para além disso, tinha uma secção para onde se podia mandar e-mail, dedicada a encomendas do livro.

Parece simples e era mesmo. Conforme fui tendo presenças mediáticas e acumulando vários press stops, ia direcionado as pessoas para o site, sendo que algumas delas converteram-se num volume considerável de vendas. Parece-me óbvio dizer que o site se torna uma ferramenta essencial na promoção de um livro.

Logística

Aqui foi onde me espalhei ao comprido. Odiei todos os detalhes deste processo. Eu sou um indivíduo que prefere pensar em nuances idiotas da ficção do que cumprir tarefas repetidas de forma monótona. Atrasei-me com envios, troquei moradas, autógrafos e dedicatórias. Entreguei livros em mão aqui e ali. Enervei-me imenso. Stressei. Entretanto percebi que ter uma lista de pessoas às quais ainda não tinha enviado o livro me podia ajudar, mas já fui tarde.

Não façam como eu, sejam organizados com esta tarefa essencial e evitem receber aquela mensagem ofendida de uma leitora que achou que demorei demasiado tempo a enviar o livro. Não estou a gozar, estou mesmo triste com a minha incapacidade logística. Ainda bem que vendi os livros todos para não ter de sofrer mais com este processo. Acho que vou ter de explorar um sistema diferente no próximo, porque isto não casa com ter um emprego full-time e com a minha cabeça desmascarada.

Conclusão

Seja porque motivo for, a edição independente é uma ferramenta válida para qualquer projecto literário. Do mais marginal ao mais pessoal, é uma forma de transformar projectos idílicos em objectos físicos que os concretizam. Se for feita com respeito e bom-gosto pode resultar em obras com grande significado e que garantem uma maior importância para o seu autor e para as pessoas que o procurem.

View this post on Instagram

➡️➡️ Olá amigos e amigas. Serve este post para vos dizer que Nova Lisboa acabou. Esgotou, mesmo. Não só o livro, mas o conceito também. Na foto está a minha cópia pessoal. Queria agradecer à minha team maravilha, a todos os meus amigos que apoiaram desde o início, assim como a todas as pessoas entusiásticas que compraram e partilharam as suas histórias da gentrificação comigo. Vender 😰 300 😰livros era um sonho que não saberia como concretizar há cerca de seis meses. Desculpem ter sido trafulha e ter feito edições sobre edições, da próxima vez prometo corrigir uma série de processos. Tenho um convite do @joaogsr para contar como foi fazer esta dica no @shifterpt e espero que ajude mais gente a não dar as mesmas calinadas que eu. Ser indie é tipo seres o teu próprio director criativo e eu fiquei feliz de não ter fodido geral. Estou bué contente com o resultado, mas houve uma altura em que já não podia com este livrinho cor-de-rosa. Estou sim é entusiasmado com o futuro, com o fechar da fase Setúbal e com a publicação das Considerações Acerca da Merda dos Gatos. Obrigado do fundo do meu coração. 💕💕💕

A post shared by Alex Couto (@escritorfamoso) on

Para além da exclusividade associada a este objecto — e por muito que a vaidade dos autores ponha em causa o seu mérito — não deixam de ser peças que foram feitas com um grande cuidado pessoal, sendo muitas vezes autênticos investimentos financeiros e emocionais para o autor.

Espero que este guia possa ajudar com alguma das dúvidas que surgem durante o processo de criação de uma obra literária. Deixo a promessa pública de que o vou voltar a fazer quando lançar os próximos. Podem sempre mandar-me uma mensagem se tiverem dúvidas.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!