Há muito mais acerca de um Bairro Social do que a sua vista 

Como alguém que viveu em grande proximidade a um bairro social, onde a vista também era um dos principais pontos fortes (é verdade, lá em Setúbal tanto o Viso como a Bela Vista estão em zonas altamente cénicas), senti que devia fazer uma listagem de todas as desvantagens vívidas que fui aprendendo a reconhecer num bairro do género, a partir da minha própria experiência pessoal.

Há muito mais acerca de um Bairro Social do que a sua vista 
 
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“Almada tem este privilégio de ter bairros sociais em espaços absolutamente maravilhosos com uma vista invejável. Eu devo dizer que qualquer bairro da Margem Norte tem inveja e eu própria amanhã iria viver para o Bairro Amarelo com aquela vista maravilhosa.” 

Foi este o comentário da Presidente da Câmara de Almada, Inês de Medeiros, acerca do Bairro Amarelo, também conhecido como o Bairro do Pica-Pau amarelo. Como alguém que viveu em grande proximidade a um bairro social, onde a vista também era um dos principais pontos fortes (é verdade, lá em Setúbal tanto o Viso como a Bela Vista estão em zonas altamente cénicas), senti que devia fazer uma listagem de todas as desvantagens vividas que fui aprendendo a reconhecer num bairro do género, a partir da minha própria experiência pessoal.

Acredito que esta listagem pode mostrar à Excelentíssima Presidente a dimensão do seu disparate, mas também criar um diálogo com outras pessoas acerca do quanto esta realidade acaba por ter um impacto duradouro na vida dos seus moradores.

Financeiro 

A componente financeira é sem dúvida a parte mais triste acerca de viver num bairro social. Acredito que todos os outros problemas que vou descrever ao longo deste texto, também tenham origem neste pequeno grande detalhe. É por isso mesmo que não me vou alongar muito nele.

A falta de dinheiro favorece a criminalidade como uma opção justificada e ajudam a explicar os fracos percursos académicos — é difícil estudar com fome ou com pais aos berros ou quando os amigos nos chamam para jogar à bola e isso é bem mais divertido que estudar. Quem precisa de dinheiro tem de ir trabalhar e pronto, é o sistema que temos, estuda quem pode. A mim diziam-me sempre que ler livros não era de homem e tenho mesmo de agradecer ao meu avô por me provar o contrário.

Para fechar a temática com um exemplo imagética, nunca me esqueço de quando fui ajudar o meu vizinho da frente a instalar o XP num computador que lhe dei em segunda mão e fui convidado para jantar uma salsicha nobre. Fiquei logo a perceber que as minhas lamúrias por ser pobrezinho não eram assim tão justificadas.

Educação 

Não é por acaso que as pessoas de um bairro social tendem a ficar por lá. A educação é sempre pública (nada contra), mas geralmente atira a miudagem de um determinado bairro para uma escola onde se concentram. O resultado é um ambiente escolar onde o mérito académico é tudo menos a preocupação principal.

Um exemplo que me levou a reflectir nesta situação com muita força, foi o facto do meu amigo de alta sociedade ter insistido comigo acerca do seu próprio mérito na sua educação. Não o quis tirar, os resultados foram dele e deixam-me orgulhoso do seu esforço, mas tive mesmo que lhe dizer que só a licenciatura que fez no estrangeiro sugere uma compreensão da sociedade que muitas vezes nem sequer passa pela cabeça de alguém de um bairro social. E isso é uma ferramenta de congelamento social.

É claro que esta falta de educação depois vai assumir o papel de certas marcas que à partida não se notam tanto. A forma correcta de adereçar problemas pessoais e profissionais. Uma postura sexual apressada em vez de ética. As ferramentas para compreender toda a burocracia que a nossa sociedade exige.

Marcas que ficam 

Acredito que há marcas físicas muito próprias na vivência num bairro social. Uma listagem das mesmas podia incluir características adquiridas como um sotaque, a dicção de tudo o resto, um vocabulário sujo e rico em palavrões, ainda mais físico ficam exemplos como as cicatrizes, as tatuagens, os furos nas orelhas, os piercings mais ou menos bandidos, os penteados inspirados nos jogadores de futebol.

Outra marcas que ficam são o trauma, uma forma mais violenta de resolver os assuntos e, com algum azar, a estreia num cadastro. Vou deixar a criminalidade para a próxima secção.

Criminalidade 

A relação entre bairro social e criminalidade tende a ser mais próxima do que em qualquer outro lado. Não é que alguém esteja impedido de começar uma carreira no mundo do crime, mas a verdade é que esta é uma ameaça com um peso completamente diferente quando se está num bairro social.

A ideia do bandido ou do traficante de droga como alguém que se admira é próxima, esses são efectivamente os indivíduos que carregam os símbolos de status mais relevantes num bairro social — leia-se jóias em ouro maciço, roupa de marcas ou ténis da Nike. É difícil não admirar alguém que tem tudo o que nós gostamos.

Para além desta tentação permanente, a verdade é que não é assim tão difícil a iniciação num mundo do género e a necessidade de dinheiro faz o resto do trabalho. Quer seja vender umas barras de pólen, guardar os quilogramas de pólen do outro em casa ou conduzir um carro num assalto a uma bomba de gasolina, vi muitos amigos meus acharem-se imortais até serem rapidamente apanhados.

Para além disso, ainda há todo aquele chico-espertismo que parece proliferar em contextos do género. Puxadas de água e de luz para pagar os mínimos, pequenos empréstimos com consequências graves, vendas e revendas de tudo o que é ilícito.

Aposto que da cadeia, a vista do bairro ainda deve parecer mais tentadora, mas se anda de mãos dadas com ameaças como esta, se calhar não compensa assim tanto.

Social 

Em qualquer turma em que tivesse estudado fora do Bairro do Viso, tive de ouvir comentários do género — “Ai, és do Viso? Não me roubes a carteira.” A minha reacção a estas dicas acabou por se tornar um mero suspiro, sobretudo quando não roubava nada. A dada altura pensei que já tinha a fama, também devia ter o proveito, o que trouxe um conjunto de problemas por si só.

No livro d’As Primeiras Coisas do Bruno Vieira Amaral, uma leitura que recomendo a todos os que procuram saber mais sobre o ambiente de bairro social que tende a encontrar-se com alguma frequência na Margem Sul do Tejo, reparei num fenómeno que também a mim me apoquentou. Ser congratulado com grande espanto em qualquer sucesso da minha vida pessoal ou profissional, por ter conseguido atingi-lo após ter começado a minha vida num sítio menos prestigiante. Torna-se tão irritante que tira algum sabor aos nossos feitos.

É claro que isto é um problema meu. Os verdadeiros problemas sociais que se prendem com um bairro deste género são um escalar completo da violência e uma falta de preparação para os meandros da sociedade dita formal. Os amigos e vizinhos que deixei no bairro já bateram nos patrões (não estou a dizer que não mereciam) e tentam vencer pela violência em todas as situações. É um problema que gera muitos outros.

Conclusão 

Para acabar, resta-me dizer que a vista é boa, mas pelos vistos não é tudo. No meu caso, ter assistido ao acidente da minha vizinha da frente porque o vizinho lhe cortou os travões do carro após uma discussão acesa, ter assistido a violência doméstica e sexual e ter sido acusado de homossexualidade pelo que era o começo do meu grande amor com a literatura, tiveram um efeito nefasto no meu próprio trauma. É claro que isso torna as amizades mais intensas e dá uma profundidade obscura à vida, mas será que alguém quer mesmo isso?

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