Duas conversas que precisamos de ter sobre o novo iPhone 12

O lançamento dos iPhone 12 e 12 Pro levou-nos a duas questões: uma sobre o argumento tecnológico levantando pela Apple para justificar a remoção do adaptador de carregamento da caixa dos novos modelos; outra sobre a limitação por software das capacidades de hardware.

Foto via Apple
 
O Shifter precisa de dinheiro para sobreviver.
Se achas importante o que fazemos, contribui aqui.

No início de Outubro, a Apple anunciou quatro novos modelos de iPhone, dois iPhone 12 (tamanho Mini e tamanho normal) e dois iPhone 12 Pro (tamanho normal e tamanho Max). O anúncio foi feito através de uma conferência pré-gravada em vídeo (porque os tempos assim o exigem) e ecoou como sempre na imprensa, da especializada à mais generalista – afinal, há novos iPhones e treze anos depois, apesar de um mercado de smartphones saturado, continuam ainda a captar a atenção mediática.

O lançamento dos iPhone 12 e 12 Pro levou-nos a duas questões: uma sobre o argumento levantando pela Apple para justificar a remoção do adaptador de carregamento da caixa dos novos modelos; outra sobre a limitação por software das capacidades de hardware que distingue os produtos.

Imagem via Apple

A questão do carregador e o argumento ecológico

A Apple decidiu deixar de incluir o carregador e os famosos os auriculares brancos na caixa dos novos iPhones. Agora quem comprar um dos novos modelos vai receber apenas o iPhone e um cabo de Lightning para USB-C. A Apple argumenta que assim consegue reduzir substancialmente (para quase metade) a caixa na qual o iPhone é vendido, o que tem implicações não só no custo dessa embalagem e dos respectivos materiais, mas também no transporte e armazenamento do produto entre a produção, as lojas e o consumidor final. O argumento é válido e, como escreve Maddie Stone, editora da publicação Debugger, está em linha com toda a narrativa ecológica que a tecnológica tem seguido.

Foto via Apple

Sem quantificar, a Apple diz que o novo iPhone é produzido com mais materiais reciclados que o anterior e que está a optar por fornecedores de componentes com uma pegada menos pesada para o ambiente. A empresa de Cupertino tenciona ser neutra em carbono até 2030, objectivo que já atingiu no que diz respeito às suas dinâmicas internas – falamos dos centros de dados, escritórios e lojas, que desde Abril funcionam todos a energias renováveis. De acordo com os dados da empresa, entre 2015 e 2019 conseguiu reduzir a sua pegada carbónica em 35%, mas no mesmo período o desperdício com produtos electrónicos aumentou 21%. Assim, se por um lado a Apple tenta posicionar-se no mercado como uma opção mais verde, por outro, consumidores mais atentos a estratégias de greenwashing poderão argumentar este paradoxo – na verdade, por mais alumínio reciclado que a empresa incorpore nos seus produtos, a questão central prende-se (como este documentário assinala) com o modelo de negócio, nomeadamente com os ciclos dos produtos, e a exploração humana de recursos do planeta, independentemente da sua origem, que requerem.

A Apple não vai querer vender menos telemóveis… e aparentemente também não quer que equipamentos em bom estado sejam revendidos, caso contrário não teria apresentado queixa contra uma empresa de reciclagem canadiana que terá dado uma nova vida a cerca de 100 mil iPhones. Ao Debugger, a empresa justifica-se dizendo que em 2019 vendeu 10 milhões de telemóveis usados que passaram por testes rigorosos para garantir que os padrões de qualidade da Apple são cumpridos mesmo em equipamentos em segunda mão. Não esquecer que a Apple é uma empresa que gosta de centralizar todos os detalhes em redor dos seus produtos, incluindo os processos de reparação – cujos orçamentos são por vezes tão altos quanto a aquisição de um novo produto –; todavia, neste caso, se o argumento é poupar o ambiente, não faria mais sentido a Apple abraçar as iniciativas de entidades terceiras (até porque os serviços de retoma e reciclagem da Apple não estão disponíveis em todos os países mundiais)?

Os novos iPhones trazem na caixa apenas o cabo de Lightning para USB-C. Diz a Apple que os consumidores já têm adaptadores em casa de outros equipamentos ou do seu anterior telemóvel – a questão é que a vasta maioria desses carregadores são para entrada USB-A (o “USB normal”) e não para USB-C. A Apple vende um carregador USB-C por 25 euros – esta compra em conjunto com o iPhone significará uma segunda embalagem e processos de transporte e armazenamento distintos. Importa perguntar quantos consumidores irão comprar um carregador à Apple ou a outra empresa e se, para bem do ambiente, não seria preferível, por exemplo, haver a opção de incluir o carregador na mesma caixa do iPhone no momento da sua compra? Em última instância, a favor do ambiente, o cabo de Lightning para USB-C não seria sequer necessário se a Apple tivesse mudado a porta do iPhone da tecnologia proprietária Lightning para o padrão da indústria tecnológica, o USB-C. Deste modo, qualquer cabo USB-C e respectivo adaptador de tomada que já tivéssemos em casa (o que é mais provável) seria compatível com o novo telemóvel da Apple.

Imagem via Apple

O bloqueio tecnológico

Podem ser quatro modelos mas têm muito em comum. Todos trazem o mesmo processador – o novo chip A14 Bionic, o primeiro de 5 nm – e ecrãs OLED. Mas há diferenças e as principais são na câmara; os modelos Pro trazem três câmaras (em vez de duas) capazes de fazer fotografia em RAW, num formato a que a Apple chama de Apple ProRaw. Isto para os amantes e profissionais da fotografia significa imagens que poderão ser posteriormente tratadas e editadas num software de edição sofisticado para produzir resultados ao gosto do fotógrafo e não dos algoritmos da Apple.

Ora, sendo o processador de todos os modelos idêntico e um dos mais avançados do mercado, apesar das diferenças de RAM existentes entre os equipamentos, não há motivo ao nível da capacidade de hardware para a tecnológica da maçã restringir o Apple ProRaw aos modelos mais caros. A razão será puramente comercial: valorizar a linha iPhone 12 Pro e o investimento dos consumidores. Este é, portanto, um exemplo claro de uma situação em que o hardware é capaz mas o software impede. A história não é nova e, se fores um leitor atento do Shifter, lembrar-te-ás certamente do caso da Tesla que, à distância, com actualizações de software, consegue alterar as funções de um automóvel.

É de notar uma outra funcionalidade de software adicionada à linha iPhone 12 e 12 Pro e que poderia muito bem ser incluída também nos produtos da geração anterior, 11 e 11 Pro: o Night Mode em todas as câmaras. O Night Mode é um modo nas câmaras que permite melhores resultados em situações de baixa luminosidade; surge de forma automática quando é necessário e funciona por processamento computacional da fotografia. Nos modelos iPhone 12, o Night Mode está disponível em todas as câmaras, incluindo na ultra grande angular; através de uma actualização de software, a Apple podia introduzir o Night Mode também nos modelos anteriores mas isso poderia canibalizar as vendas dos seus sucessos – podemos puxar para aqui a discussão ecológica do ponto anterior, uma vez que prolongar o tempo e utilidade de um equipamento é também poupar o ambiente.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!