Wikipédia e a procura pela perfeita representação

Entrevistámos dois dos membros da Wikimedia Portugal e as Wiki Editoras, um grupo informal de edição de Wikipédia, formado por mulheres e focado em visibilizar identidades sub-representadas no capítulo lusófono da plataforma, com espírito de missão e como uma forma de activismo.

Entrevistámos os responsáveis pela informação da Wikipédia em Portugal e as Wiki Editoras, um grupo informal de edição de Wikipédia, formado por mulheres e focado em visibilizar identidades sub-representadas no capítulo lusófono da plataforma, com espírito de missão e como uma forma de activismo.
 
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Ao longo da, ainda curta, história da internet, o seu potencial foi-se desdobrando e dando origem a novas fases que iam sendo numeradas sequencialmente, como se se tratassem de novas versões de um mesmo produto. Determinante dessa nomenclatura foi sendo, sobretudo, o papel do utilizador na construção e modelação deste espaço digital partilhado. E se agora se fala de um modo meio propagandístico, quasi-publicitário, de uma web 3.0, de realidade aumentada ou virtual, de inteligência artificial e reconhecimento facial, a verdade é que vivemos hoje, mais do que nunca, imersos na sua versão anterior, e parcialmente acríticos quanto à sua configuração.

Web 2.0 é o nome do capítulo digital que ficou marcado pela socialização do digital, e se essa digitalização foi dominada pelo modelos de negócio das empresas tecnológicas que colonizaram grande parte do território virtual, lidando com as críticas através de relações públicas, estratégias de comunicação, lobbies, advogados e ameaças, a verdade é que entre as plataformas de vanguarda desse momento histórico, um par delas assimilou a missão de forma distinta. Entre estas, destaca-se, sem sombra de dúvida, a Wikipédia, a enciclopédia online lançada a 15 de Janeiro de 2001 em inglês, e em Maio do mesmo ano noutras línguas, incluindo português, e absorvida pela sociedade como se tivesse existido desde sempre. Pela sua conveniência, a Wikipédia tornou-se primeira paragem de qualquer internauta curioso sobre um qualquer assunto, funcionando tantas vezes como auxiliar de memória, fonte para trabalhos escolares, ou simples caminho para se fazer sentido do mundo. Fundada como uma plataforma socialmente construída e moderada, imaginada por Jimmy Wales e co-construída por Larry Sanger, a Wikipédia apresentou-se desde sempre como “a enciclopédia para a qual não-especialistas pudessem contribuir”, procurando colmatar directamente as lacunas de um outro projecto que à altura partilhavam, a Nupedia, como evidencia uma análise dos nomes. 

A Wikipédia, de título auto-explicativo, é uma enciclopédia digital baseada no software Wiki, um sistema de gestão de conteúdos preparado para que o que existe no site seja decidido pelos seus utilizadores através de um editor de texto simples, permitindo aumentar a heterogeneidade dos participantes. É essa a força motriz da Wikipédia, o site que mais popularizou este conceito de desenvolvimento existente desde pelo menos 1995. Desde 2003, a Wikipédia, expandiu a sua área de actuação com a criação da Wikimedia Foundation, fundada igualmente por Jimmy Wales e Larry Sanger e com o objectivo expresso de promover “um mundo em que cada ser humano tenha livre acesso à soma de todos os conhecimentos”, a partir deste momento não só na forma enciclopédia mas numa série de outras configurações.

Não obstante a este alargamento espectral do projecto, a Wikipédia foi desde sempre o epicentro da estratégia e a sua face mais visível. Afinal de contas é lá que se narram partes da história, biografam personalidades relevantes, se registam os acontecimentos com potencial histórico, em suma, se reúnem e se interligam os factos criando, como noutra qualquer enciclopédia, uma ideia de universalidade do conhecimento – tanto no que toca ao acesso, quanto à oferta. Contudo, será que esse conhecimento, aparentemente universal, é representativo? E como se garante a representatividade, a fidedignidade das informações e a equidistância de perspectivas numa plataforma socialmente gerida? No fundo, como se gere democraticamente as intervenções de milhares de pessoas, garantido a qualidade daquele que é um dos sites mais visitados do mundo? Em teoria as respostas são simples mas na prática o caso reveste-se de particularidades, que se organizam de diferentes formas, representantes dos interessados em garantir o bom serviço da plataforma.

“O controlo sobre o conteúdo da Wikipédia cabe à comunidade auto-organizada de editores de cada versão linguística da Wikipédia e de cada um dos outros projectos” começam por explicar-nos Gonçalo Themudo, Presidente da Wikimedia PT e André Barbosa, também membro da associação a que chamam o capítulo português da Wikimedia. Tal como a plataforma pública, também a estrutura interna da Wikipédia se faz preceder pela fundação Wikimedia, igualmente divididas em diferentes capítulos, por região, língua ou tema — comunidades de utilizadores reconhecidas pela fundação central, que têm por isso acesso, por exemplo, a financiamento para promoção de actividades, mas não uma pertença formal à organização. “O papel dos capítulos locais é o de dinamizar a comunidade de editores, promover o conhecimento sobre a Wikipédia e os outros projectos da Wikimedia, como o Wikimedia Commons ou o Wikidata, entre a sociedade para que mais pessoas contribuam e promover colaborações com instituições culturais que partilhem os mesmos valores de partilha de conhecimento para a disseminação desse mesmo conhecimento pela sociedade”, complementam. Desde o princípio do projecto, até aos dias de hoje, que a política de gestão do site se mantém essencialmente íntegra – com diversas optimizações e reajustamentos pelo meio. Desde então qualquer visitante se pode rapidamente converter em contribuidor, transitando do papel passivo do leitor para o papel activo de redactor, corrector ou moderador. E é nesse momento da edição, e da decisão sobre o conteúdo que se limita o papel dos capítulos locais da Wikimedia.

Entrevistámos os responsáveis pela informação da Wikipédia em Portugal e as Wiki Editoras, um grupo informal de edição de Wikipédia, formado por mulheres e focado em visibilizar identidades sub-representadas no capítulo lusófono da plataforma, com espírito de missão e como uma forma de activismo.
O universo de projectos Wikimédia

Políticas & Funcionamento 

Nas diferentes wikis, que em conjunto compõem a Wikipédia, são os editores, identificados por um registo na plataforma, os responsáveis por tudo o que acontece, relacionando-se para tal segundo uma série de normas, promotoras do espírito democrático e dissuasoras de abusos. Como uma enciclopédia, começa por explicar que todas as políticas da comunidade estão acessíveis a qualquer pessoa. Essas políticas assentam sobre 5 pilares.

É uma enciclopédia, rege-se pela imparcialidade, tem conteúdo livre, possui normas de conduta e não possui regras fixas e todo o restante funcionamento se operacionaliza de modo participativo. Tal como as mudanças num artigo estão sujeitas a aprovação, e qualquer artigo está constantemente sujeito a alterações, também regras de funcionamento ou directrizes sobre determinada prática podem ser alteradas, reflectindo as vontades, dúvidas, preocupações e discussões da comunidade. Tudo, ou quase tudo, na Wikipédia acontece à frente de todos, e exemplos disso são os históricos de edição, a página de discussão sobre cada artigo, as estatísticas de edição por capítulo, por utilizador e por tipo de edição, ou a lista de utilizadores com privilégios administrativos e a sua descrição. Quanto a este grupo de utilizadores, os administradores, importa referir que não possuem qualquer poder editorial diferenciado, apenas permissão para bloquear e desbloquear páginas, eliminar conteúdo ou visualizar o que foi apagado. Actualmente, no universo de língua portuguesa, entre os 2 milhões de utilizadores registados e os 6143 utilizadores activos (com edições feitas nos últimos 30 dias) existem 75 administradores. A saber, no universo Wikipédia existem os auto-revisores, reversores, burocratas, editores de interface, eliminadores, utilizadores auto-confirmado e, ainda os robôs, que não sendo utilizadores humanos, desempenham funções automatizadas de edição e necessitam de uma autorização especial para o fazer. Esses privilégios são por sua vez geridos pelos acima denominados Burocratas, seguindo as normas expressas, e que existem para qualquer tipo de utilizador. Qualquer um pode chegar a qualquer um destes cargos demonstrando apetência para a área, sendo que para os administradores existem os requisitos mínimos de “possuir 2.000 edições no domínio principal e uma conta com 12 meses de registo” e apresentando um comportamento que mereça a confiança dos demais administradores, nomeadamente por conhecer e aplicar as políticas e recomendações da Wikipédia ou participar com civilidade nas discussões da comunidade, justificando as suas decisões e reconhecendo os consensos.

É neste sistema, auto-gerido e auto-explicativo, que este universo de projectos se desenvolve e evolui constantemente a um ritmo de cerca de 10 edições por segundo em todo o planeta, divididas pelas áreas do universo Wikipédia. Cada artigo evolui de forma interactiva, reunindo e assimilando as edições dos utilizadores que sigam as políticas editoriais definidas por cada comunidade de edição. A Wikipédia em Português tem um conjunto de políticas editoriais que todos os colaboradores devem seguir. As próprias políticas foram criadas colaborativamente pela comunidade de editores. Claro que com mais de 1 milhão de artigos e com uma organização horizontal é impossível certificar que todos os artigos cumprem essas políticas, mas qualquer um pode assinalar um artigo como tendo determinado problema ou não cumprir certa política. Cada artigo tem também uma página de discussão própria em que qualquer um pode fazer sugestões para melhorar os artigos, ou indicar em mais detalhe porque acha que não cumpre a política A e B. Outros editores podem entrar na discussão e apoiar as sugestões ou refutá-las, idealmente apresentando fontes bibliográficas de qualidade que confirmem a opinião.explicam-nos Gonçalo e André.

Contudo, e como tudo, especialmente online, e onde se reúnem uma série de informações e perspectivas sob os olhos de uma imensidão de pessoas, as lacunas tendem, felizmente, a ser identificadas e organicamente colmatadas. Pelo teor do projecto, comunitário e contínuo, não são vistas como erros finais, mas como estágios de um processo evolutivo constante, quer das informações concretas (erros, lapsos), quer da forma de as sistematizar (questões de representatividade de género ou etnia). Desta postura e abordagem receptiva à crítica, à assimilação de novas ideias, e à colaboração dos diferentes agentes resultam novas ideias para aumentar o seu potencial de representação do conhecimento globalmente agregado, como é apanágio de toda e qualquer enciclopédia. Os exemplos disso são também fáceis de identificar. Podemos por exemplo falar do Huggle, software anti-vandalismo que permite aos editores mais experientes da Wikipédia reverter edições mal intencionadas de forma célere, ou, noutro contexto, da criação da Wikidata, plataforma que permite um olhar mais analítico sobre toda a informação agregada, permitindo assim uma deteção globamente mais fácil das as zonas sub-representadas em cada contexto, uma das questões sempre em aberto, como nos explicam: “Há várias formas de o fazer. Podemos ir pelos artigos da própria Wikipédia, e reparar nos hiperlinks que estão a vermelho. Esses indicam artigos ainda não criados. Pode também ser feito um levantamento de assuntos notáveis sobre determinado tema, publicar uma lista desse tema na Wikipédia com todos os assuntos levantados e verificar quais artigos ainda precisam de ser criados. Mas essas estratégias necessitam de manutenção constante por parte dos editores. O Wikidata entretanto sendo uma base de dados centralizada, contendo não só itens para todos os artigos já existentes na Wikipédia, como também para temas que ainda não tem artigos, permite que se faça perguntas, por exemplo: ‘Quantas mulheres cientistas de nacionalidade vietnamita não têm ainda artigo na Wikipédia em Português?’ e um motor de busca SPARQL debita uma lista com os nomes e outra informação já registada sobre essas mulheres, que será actualizado automaticamente há medida que artigos sejam criados e novos itens de cientistas vietnamitas sejam criados no Wikidata.”

Wiki Editoras: activismo e representatividade na Wikipédia

Mas se na teoria do projecto está a ideia de colaboração, e o protagonista é o leitor empoderado, na prática desta enciclopédia, a narrativa não se podia fazer sem intervenientes que representem essa ideia. É o caso das Wiki Editoras Lx, um grupo informal de edição de Wikipédia, formado por mulheres e focado em visibilizar identidades sub-representadas na versão lusófona da plataforma, que partindo da sua própria consciência da sub-representação puseram as mãos à obra. “O grupo Wiki Editoras Lx surgiu de uma editatona [maratona de edição] que foi organizada pela Tila Cappelletto durante o 2º Festival Feminista de Lisboa, em 2019, cujo tema era ‘Visibilizando as margens’. A ideia foi não só abordar a desigualdade de género na Wikipédia, mas assumir uma perspectiva interseccional que assume que as camadas de opressão não são iguais para todas as mulheres, e que o cruzamento entre outras realidades, como a racialização, a etnia, a orientação sexual, o género e a origem também definem nuances sobre quem, que não seja homem cis, branco e hetero, está presente na narrativa colectiva das sociedades” conta sobre o início do projecto Ana Bragança, numa entrevista respondida de forma colaborativa por 3 das integrantes do colectivo. Para as fundadoras do colectivo, a deteção das falhas não foi mais do que um processo intuitivo, resultante de uma consciência anterior ao momento da edição. “Eu diria que a constatação de desigualdades é relativamente óbvia para mulheres, mesmo cis, brancas e hetero, como é o caso deste grupo inicial de editoras, e que se mantém a maioria do grupo actual. Passamos por isso desde que nascemos.”, continua Ana, que antes de avançar para a próxima questão, lembra: Há algo que é importante dizer, relativamente ainda a este tema, que é que o conteúdo é reflexo de quem o escreve, sendo a Wikipédia uma plataforma colaborativa de produção de conteúdos enciclopédicos. Isto significa que vai reflectir a sua comunidade (e por sua vez a sociedade). Para nós não é só importante aumentar os conteúdos, mas também que mais mulheres e pessoas de género não conforme passem a editar regularmente a Wikipédia.”

Logo do projecto Women in Red

Na Wikimedia, como um todo, as Wiki Editoras estão longe de ser um projecto único que denuncie e colmate a subrepresentação evidente. Pelo contrário, são uma das pontes que liga a comunidade de editores lusófonos a uma tendência internacional de supressão das desigualdades, composta por outros projectos como o Art+Feminism, projecto que se foca em artistas mulheres, transsexuais, ou de género não-binário, e que no seu historial conta com mais de 84 mil melhorias em páginas da Wikipédia e feitos históricos como a organização do Hackathon no MoMA; ou o Women in Red, que pretende reflectir sobre as mulheres cujos nomes surgem a vermelho, o que indica a inexistência de uma página completa no Wikipédia. Ambos os projectos inspiram-se no estudo, bem documentado na própria enciclopédia, sobre o carácter do seu viés de género. À data, a Wikimedia Foundation concluiu que a sub-representação do género feminino se devia em boa parte à baixa percentagem de editoras e essa postura activa no combate o problema não se esgotou nessa altura, nem no estrutura central da fundação.

“A Fundação Wikimedia internacional (WMF) tem consciência deste viés e já conduziu quatro inquéritos sobre a questão, entre 2008 e 2012. Em 2017 lançou o projecto Gender Diversity Mapping, e em 2018 um relatório sobre equidade de género na Wikipédia. Também apoia projectos nesta área  – por exemplo a editatona que organizámos em Março deste ano recebeu apoio financeiro para despesas da WMF, porque se integrava na campanha global da Art + Feminism, uma ONG dedicada a este tema e que tem o apoio da WMF.

Em Portugal, a Sofia Ponte, no Porto, tem sido bastante activa já há alguns anos na organização de editatonas com o mesmo propósito. Em janeiro deste ano, a Wikimedia Portugal incluiu uma mesa redonda sobre disparidade de género da Wikipédia na programação da WikiCon Portugal 2020, um momento liderado pela Sofia, tendo convidado a Wikimujeres, um grupo da Wiki espanhola, a estar presente para o debate, no qual também acabámos por participar, juntamente com a Rute Correia, que representou a comunidade ubuntu.”

Se a sub-representação em função do género é um dado adquirido, e outros casos como o da editora Jessica Wade até já levaram o tema às notícias, uma visão global sobre o mundo reveste-se de uma complexidade tremenda onde se interligam diversas dimensões de opressão da identidade. “A classe, raça, orientação sexual e muitos outros fatores determinam diferentes experiências com o mundo e garantem alguns privilégios. Ao avaliarmos e considerarmos estas intersecções, rapidamente chegamos à conclusão de que existem, efetivamente, várias estruturas de divisão, diferentes graus de invisibilidade e relações de poder e mais facilmente lutamos contra eles através de uma análise metodológica que reconheça as várias formas de discriminação e estigmatização.” explica Catarina Lopes, outra das Wiki Editoras. É sobre essas intersecções que focam o seu trabalho; começando pelas mulheres mas sem um fim à vista que não seja uma representação equitativa, partindo do princípio de que o seu lugar já é por si um privilégio, como explica Ana Bragança “a constatação da importância de mantermos uma perspectiva interseccional, falando por mim, e que é partilhado pelo resto do grupo, vem de um processo contínuo de desconstrução e de consciencialização de que eu faço parte de um grupo privilegiado dentro do meu género.”. 

Se as diferentes dimensões identitárias se sobrepõem, multiplicando os níveis de sub-representação nesta que é a maior Wikipédia comunitária do mundo, a verdade é que esta desigualdade não começa nas páginas colaborativamente editadas desta plataforma, antes pelo contrário. “O ter ou não ter mérito é uma questão subjectiva e por isso mesmo há critérios definidos pela wikipedia que devem ser seguidos para haver algum controlo e ao mesmo tempo um padrão para que quem cria o artigo esteja preparado para o defender  de forma fundamentada, aplicando-se o mesmo a quem o possa a vir a questionar.” diz-nos Sofia Matias, relembrando que pelas regras do processo de edição e criação de páginas da Wikipédia, cada nova informação deve ser correctamente referenciada para um documento credível que lhe seja anterior, assim representar online quem não o está, por vezes de todo, até então torna-se uma tarefa ainda mais complicada. “Habitualmente torna-se tarefa difícil encontrar um número de fontes diversas e com popularidade que permitam redigir um artigo mais estruturado e completo. Esta constitui uma importante prova da questão de desproporcionalidade, falta de equidade e exclusão que existe, no que diz respeito à representação de pessoas que fazem parte de grupos marginalizados e/ou oprimidos, sendo um importante reflexo da nossa sociedade. Redigir um artigo sobre estas pessoas requer um trabalho aprofundado de pesquisa e de investigação (…)” diz-nos Catarina, e completa Sofia. “O que dificulta a meu ver o trabalho é o acesso às fontes, às referências, o tempo que se tem para encontrar/ ler/estudar o conteúdo delas para que o artigo seja forte, para que não seja um mero artigo de enumeração de factos sobre a pessoa ou o trabalho dela. Há informação à qual não conseguimos ter acesso a partir da internet ou que não conseguimos encontrar porque não dominamos a nomenclatura da área ou porque a pesquisa num dado site é tudo menos intuitiva, ou até porque os conteúdos são pagos, ou apenas acessíveis a determinadas pessoas. A maioria dos editores trabalham e editam/criam artigos de forma voluntária logo a probabilidade de terem tempo para se enfiarem dentro de um arquivo ou biblioteca de maneira a encontrarem bibliografia (livros, artigos de jornais, etc) que corrobore as informações e ajude a criar um bom artigo é muito reduzida.”. Assim, a Wikipédia para além de lidar com as suas próprias falhas, acaba reflectindo as zonas de sombra que lhe são anteriores em projectos enciclopédicos, académicos ou de outros tipos; acaba até por, em muitos casos, se confrontar com gaps de informação por esta não ter sido transposta ou disponibilizada no universo digital, a que se deve fazer referência. Ainda que já existam alguns procedimentos definidos, Ana Bragança sugere que seria importante que os critérios que regem a actuação e que definem que conteúdos são relevantes e que personalidades são notórias sejam revistos e visto à luz da realidade, em que algumas pessoas (na generalidade, homens cis, brancos e hetero) têm maior cobertura mediática e académica, e que por isso irão existir mais fontes de informação a falar sobre elas, do que outras, e que isso não significa que umas sejam mais relevantes que outras para a nossa sociedade e para o conhecimento.” – tal como na perspectiva interseccional se multiplicam as dimensões de opressão, também nesta questão da representação se multiplicam as evidências da sub-representação.

Construíndo conhecimento em conjunto

Neste particular, da história pré-existente sobre determinado fenómeno, outra questão se levanta, especialmente, claro está, numa enciclopédia colaborativa. Sendo vários os pontos de vista em convergência, e o objectivo máximo uma representação do mundo equitativa, equidistante e equilibrada em termos de pontos de vista, levanta-se rapidamente a questão da neutralidade da informação. “Naturalmente que a Wikipédia é uma obra, pela sua própria natureza, incompleta, com tendência a melhorar com o tempo, mas não significa que se deva resignar a que falhas permaneçam nos artigos.” explicam-nos o Gonçalo e o André da WMPT. Esta é uma questão de fundo mas de importância elementar, tanto que a resposta começa na definição das regras, que anteriormente referimos, e prolonga-se na interação de cada utilizador e editor. “Cada artigo tem também uma página de discussão própria em que qualquer um pode fazer sugestões para melhorar os artigos, ou indicar em mais detalhe porque acha que não cumpre a política A e B. Outros editores podem entrar na discussão e apoiar as sugestões ou refutá-las, idealmente apresentando fontes bibliográficas de qualidade que confirmem a opinião. Quando os editores chegam a acordo, o artigo é editado conforme discutido. Claro que em temas pouco controversos, os colaboradores são encorajados a ser audazes e editar directamente os artigos sem passar por qualquer aprovação prévia. Caso haja algum problema grave com a edição, o artigo é rapidamente revertido para a versão anterior por outro voluntário”, continuam, detalhando o processo. De resto, este carácter mutante das informações não é visto como uma coisa má mas antes como uma oportunidade de diálogo aprofundado e fundamentado, como diz Sofia Matias das Wiki Editoras “a wikipedia é um espaço onde diferentes pontos de vista podem ser expostos, desde que sejam fundamentados, caso contrário a Wikipédia em vez de ser um espaço de diálogo de partilha de conhecimento tornar-se-á num campo de batalha e para isso já existem o twitter, o facebook e todas as outras redes sociais, coisa que a Wikipédia não é.” Tanto para os responsáveis pela Wikimedia como para as Wiki Editoras esta é uma questão sensível mas desafiante e central ao seu trabalho;

Wikipédia

“Falar do Estado Novo em Portugal, por muito isenta que uma pessoa tente ser há sempre um momento em que a sua “opinião” se reflecte no que escreveu e isto pode tornar o artigo unilateral. Mas se o mesmo artigo tiver contribuições de mulheres, de afro-descendentes, de ex-combatentes de ambos os lados da guerra colonial, dos que eram crianças na altura, de retornado, etc, o artigo será muito mais rico e muito mais próximo da realidade e poderá ajudar a quem o leia ter uma imagem mais abrangente e realista do que foi esse período e isto implica que hajam artigos escritos sobre a extrema direita, fascismo, etc.” descreve Sofia exemplificando a importância de contributos diferenciados para a Wikipédia e lembrando a tal busca pela perfeita representação, que a infraestrutura da plataforma também alimenta. À partida todos os artigos seguem “três princípios basilares e interligados: “Verificabilidade” – as afirmações contidas nos artigos devem ser possíveis de ser confirmados por qualquer um; “Imparcialidade” – os temas devem ser tratados de um ponto de vista neutro, refletindo as várias perspectivas sobre um mesmo tema na proporção da sua aceitação pelos especialistas do tema; e “Pesquisa inédita não é permitida” – A informação deve ter sido publicada em obras de qualidade, sejam jornais, revistas, livros, documentários, ou outros” mas mesmo seguindo esta tríade há possibilidade de se deixarem vincar perspectivas pessoais, assim os editores são convidados à discussão na página de cada artigo, à inclusão de fontes que privilegiam a diversidade de pontos de vista, ou, em última instância, a sinalizar as páginas como não correspondendo a uma perspectiva global da temática. “É no entanto esperado que os diferentes pontos de vista estejam presentes em todos os artigos dado o princípio da imparcialidade que referi. A dificuldade em alguns casos é o acesso e a compreensão de fontes escritas nas diferentes línguas, de modo a conseguir incorporar as perspectivas diferentes. De qualquer modo, é possível assinalar que determinado artigo não está escrito de uma perspectiva global.”

Wikipédia

A busca pela perfeita representação é uma missão nobre mas que não se esgota nestes pequenos núcleos, pelo contrário. Sofia Matias das Wiki Editoras sugere que “toda a gente devia ter aulas sobre como criar um artigo na Wikipédia, como escrever sobre algo de forma fundamentada e esclarecida, como procurar informação sobre um dado assunto, cruzar ideias e diferentes pontos de vista sempre de forma fundamentada e muito mais. A wikipedia pode ser um espaço de encontro e de troca de ideias maior do que já é.”, Ana Bragança, falando especificamente sobre o domínio de representatividade em que se foca junta a esta ideia o exemplo prático do que tem sido feito pelo seu grupo “o grupo Wiki Editoras Lx iniciou um novo programa em Junho, as Curadorias Convidadas, com o objectivo de cobrir conteúdos que não têm representantes no grupo actual ou que visam reforçar conteúdos de grupos específicos, bem como de dar a conhecer o grupo a essas pessoas, para que eventualmente também venham editar connosco, aprendam a editar e possam passar a ser elas as vozes activas dessas narrativas.”. Também o capítulo português da fundação olha para esta questão com entusiasmo e explica o que tem feito no sentido de atrair mais editores para a plataforma: A Wikimedia Portugal tem tido várias colaborações com Universidades públicas e privadas, desde a Universidade do Porto até ao CLEPUL ou o ISAL. Os capítulos locais da Wikimedia organizam oficinas onde os alunos e até os professores são apresentados às ferramentas de edição, políticas editoriais e algumas particularidades da Wikipédia para que a experiência de todos seja proveitosa e sem problemas.”

Como explicam Gonçalo e André, do capítulo nacional, o uso mais alargado de Wikipédia em contextos, chamemos-lhe, formais, beneficia não só a enciclopédia digital como torna os leitores – por exemplo, alunos – mais conscientes sobre as particularidades da plataforma e assim mais capazes de discernir sobre a informação que lá encontram – consultar conscientemente e editar a Wikipédia pode ser assim uma ferramenta de aprendizagem, em que os factos surgem interligados e a sua sistematização pode beneficiar o outro. “Normalmente são professores que nos contactam por desejarem usar a Wikipédia como ferramenta de ensino. Muitos professores e alunos ficam motivados por os seus trabalhos terem algum impacto na vida real ao serem publicados na Wikipédia.”, corroboram os responsáveis. Também Sofia Matias das Wiki Editoras partilha esta ideia de que colaborar para a Wikipédia pode ser mutuamente benéfico, sugerindo que quanto centros de investigação, arquivos, museus e similares a relação é benéfica para ambos os lados. Por um lado, haverá mais fontes para provar que a informação x ou Y é verdadeira; o conhecimento por eles produzido chegará a mais gente e deixará de estar restrito aos especialistas, aos que produzem conhecimento para os seus pares e não para o público em geral. Para além disto, poderá também contribuir para saber o que já foi feito sobre determinado tema, por vezes, pensamos que não há nada e afinal já foi alvo de investigação/estudo, apenas não está acessível.”

No final do dia, convém lembrar que quem modera a plataforma é a comunidade de editores que nela está envolvida, segundo processos que procuram o melhor consenso possível. No exercício quase poético de procura pela perfeita representação, cruzam-se grupos com um espírito de missão que fazem da criação e da sistematização da informação uma forma de activismo, membros dedicados de uma comunidade online com um propósito bem definido e materializado, como poucas, e milhões de internautas mais ou menos conscientes na sua forma de pesquisar e selecionar informação. É a estrutura da plataforma, as regras pré-definidas e bem documentadas, a estrutura de informação acessível e bem desenhada, onde melhor se materializa a essência do fenómeno. Na busca pela perfeita representação, a Wikipédia representa uma boa parte das boas práticas que tecnologias de informação e comunicação como a internet podem prover, inspirando-se no espírito democrático para empoderar todos quantos se relacionam no seu ecossistema. 

 


(As entrevistas foram feitas por e-mail e as citações ligeiramente alteradas para clarificação e adequação à narrativa da reportagem)

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