Amazon amplia a sua rede de p̶r̶o̶t̶e̶c̶ç̶ã̶o̶/vigilância. Até onde?

Câmaras ligadas à polícia, um drone que patrulha sozinho a tua casa e uma rede criada com a ajuda dos vizinhos. As novidades da Amazon parecem assustadoras.

Imagem via Amazon
 
Este artigo é gratuito como todos os artigos no Shifter.
Se consideras apoiar o nosso trabalho, contribui aqui.

Referirmo-nos à Amazon como um gigante do e-commerce é cada vez mais redutor tendo em conta as áreas de negócio em que a tecnológica norte-americana já está envolvida. Além do streaming de conteúdos, sejam músicas ou séries, a Amazon é responsável por uma variedade de equipamentos que prometem tornar as nossas casas mais dinâmicas e conectadas.

A linha Amazon Echo é mais do que uma família de colunas ditas inteligentes, um grupo de autênticos assistentes pessoais. Já a linha Amazon Ring, por seu lado, consiste numa diversidade de câmaras, alarmes e campainhas, ligadas permanentemente à internet. Todos estes equipamentos, tal como os Echo, funcionam com a Alexa, o software que a Amazon desenvolveu e que serve de assistente pessoal, tendo a capacidade de compreender o que dizes com a tua voz humana e de responder de volta através da sua voz artificial.

A aposta da Amazon na “inteligenficação” das nossas casas não é nova e há muito que levanta preocupações, principalmente o Ring e a sua plataforma de gestão partilhada entre a Amazon e as autoridades locais. Em Outubro de 2019, mais de 30 organizações pediam o fim da parceria entre a Amazon e a polícia, então revelada por uma investigação jornalística que denunciava a partilha das imagens recolhidas pelas campainhas e câmaras Rings com as autoridades locais. Ainda assim, ao que tudo indica, esta parceria mantém-se (ainda que os utilizadores possam agora desactivar a partilha das imagens dos seus Rings) e, segundo o TechCrunch, há inclusive uma parte do portal onde os agentes da polícia podem pedir acesso às gravações dos Rings acessível a qualquer pessoa online.

Entretanto, se os Ring à entrada das casas já podem funcionar como uma rede de vigilância ao serviço das autoridades e vulneráveis a ataques, estes equipamentos vão ficar mais ligados à rede. O Amazon Sidewalk, a ser lançado brevemente, consiste numa rede de baixa energia, baseada em Bluetooth e frequências de 900 MHz, que promete manter estes dispositivos ligados à rede mesmo quando o sinal de wi-fi não lhes chega. “Por exemplo, com o Sidewalk, podes continuar a receber alertas de movimento das tuas câmaras de segurança mesmo que o teu wi-fi vá abaixo. Ou se o teu wi-fi não chega às luzes inteligentes no canto da tua garagem, o Sidewalk ajuda a que elas permaneçam ligadas”, lê-se no site da Amazon.

Amazon Sidewalk (imagem via Amazon)

Se tudo correr de acordo com o plano, o Amazon Sidewalk vai ser lançado no final deste ano. O Mashable refere, citando o white paper referente a este projecto, que todos os consumidores que já tenham um equipamento da Amazon compatível com o Sidewalk vão automaticamente ser inscritos no programa a não ser que, de modo manual, digam que não querem. O mesmo documento explica como tecnicamente esta nova rede chamada Sidewalk vai funcionar: na prática, cada dispositivo vai “emprestar” uma parte do seu wi-fi aos outros que estejam próximos; cada parcela vai em conjunto formar a tal rede que, não sendo energicamente exigente, permitirá que os equipamentos mais próximos se mantenham ligados mesmo que fora de casa. A Amazon garante que a rede Sidewalk – que no fundo é uma rede mesh, mas centralizada e proprietária – vai usar “três camadas de encriptação” para manter os dados dos diferentes utilizadores seguros.

Neste puzzle de vigilância da Amazon há, entretanto, outra nova peça, que volta a testar os limites do que consideramos privacidade. Chama-se Ring Always Home Cam e, como o próprio nome sugere, consiste numa câmara de vigilância ambulante por tua casa. Mais do que uma câmara de vigilância ou um sistema de circuito fechado, a Always Home Cam é um pequeno drone em constante alerta e que a qualquer momento pode levantar voo e ir fazer patrulha da casa, sempre e cada vez mais ligada às redes da Amazon. É esse factor que levanta mais perguntas.

Ring Always Home Cam (imagem via Amazon)

O Ring Always Home Cam tem total autonomia e pode ser programado para iniciar uma patrulha pela casa quando alguma perturbação for detectada; mas o drone pode fazer voos a pedido dos donos e seguir um determinado percurso pela casa que estes definiram. Dave Limp, vice-presidente sénior de dispositivos da Amazon, disse ao The Verge que “eu ficaria mais preocupado com a câmara do seu telefone do que com um drone”; uma perspectiva que recorre a um curioso relativismo face a um assunto tão complexo quanto a privacidade, especialmente dentro de domínios potencialmente íntimos, como a casa.

Seja nos Ring, nos Echo ou na rede Sidewalk, a tecnológica assegura que estes produtos são seguros com autenticação de dois factores ou encriptação de ponta-a-ponta, que permite que os conteúdos não possam ser lidos por terceiros, contudo conforme mostrou a audição de Jeff Bezos no congresso norte-americano há uma grande parte do seu universo que acaba por ficar fora do controlo. A prová-lo estão situações como os quatro funcionários da própria Amazon foram apanhados a espiar câmaras Ring, na carta enviada ao Senado a Amazon é clara dizendo que os funcionários tinham acesso aos vídeos mas abusaram desse acesso; o mesmo cenário é descrito nesta peça do The Intercept sobre o escritório da empresa na Ucrânia. Para além do acesso interno, das ligações às autoridades locais criando redes de vigilância ainda mais apertadas ao serviço dos estados, há ainda o problema da vulnerabilidade a que se sujeita o utilizador médio. Apesar da empresa recomendar autenticação de 2 factores, ainda em dezembro do ano passado um leak expôs credenciais de milhares de consumidores, permitindo acessos indevidos aos sistemas de vigilância.

Investimos diariamente em artigos como este.
Precisamos do teu investimento para poder continuar.