Presa por pintar, Zehra Doğan continuou na prisão a ilustrar a resistência curda

Sobre Zehra recaíram as acusações de "propaganda terrorista" por posts nas redes sociais, o seu trabalho jornalístico e as suas pinturas. A sua obra durante os tempos de prisão conta uma história de resistência e superação, não só concretamente ilustradas nas figuras que marcam os objectos, mas também implícita na forma como o fez.

DR / Zehra Doğan by Eren Karakus
 
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A estadia numa prisão é assunto que muito pontua romances e histórias imersivas em que a nota predominante é a resistência a um sistema que visa subtrair direitos a um cidadão. Em livros como o clássico Papillon, de Henri Charrière, conta-se a épica história de um homem injustamente preso que se vale da sua força mental para aguentar a dureza do calabouço e ainda assim manter alguma clareza na sua visão de futuro. Mas, se a ficção tem o poder de nos envolver e transportar para um mundo imaginário vívido, em que compartilhamos o sofrimento com as personagens, a vida real traz-nos narrativas que revelam as fundações realistas destas obras. É uma dessas histórias que nos chega recentemente da Turquia, pelo pincel de Zehra Doğan, acrescentando camadas àquilo que é uma complexa pintura da contemporaneidade.

Zehra é curda e vive na Turquia, país onde uma considerável parte deste povo habita mas é frequentemente marginalizado, resultado de uma história de conflitos entre o poder central turco e a resistência civil curda, que nos recorda o débil equilíbrio de tensões que segura o mundo a oriente. Resumidamente, os curdos são um grande povo, um dos maiores sem direito a estado próprio, que se divide entre vários países. A grande maioria dos curdos divide-se entre o Iraque, onde mantém a região autónoma do Curdistão Iraquiano, a Síria, onde procuram o reconhecimento e a autonomia do Curdistão Ocidental tendo em Rojava uma das bandeiras deste apelo e partindo dali para o combate ao daesh – no qual têm tido um papel importante -, e a Turquia, onde se estima que habitem 14 milhões de curdos sem direito ao reconhecimento. A sua presença em todos estes territórios – que apesar de serem em países diferentes são adjacentes entre si – tem sido alvo de diversos ataques, tornando-se num caso de particular interesse na análise da geopolítica da região.

Na Turquia, provavelmente por ser [o país] onde existem mais curdos, é também onde este povo parece ter o seu direito à auto-determinação mais ameaçado – num conflito quase contínuo que se estende desde o início do século passado. Foi durante a regência de Atatürk, um dos obreiros da construção da identidade e da república turca mais ou menos como a conhecemos hoje, que se deram algumas tentativas de revolta do povo curdo brutalmente reprimidas pelo poder turco que viriam a marcar os primeiros capítulos de uma história sangrenta, que em 1937 colocara parte do território habitado por curdos sob a lei marcial turca e valera aos curdos a perda do seu epitáfio, passando a ser designados na Turquia como os turcos das montanhas. A dureza da lei sobre os curdos fizera logicamente resfriar o conflito mas não muito tempo.

Em 1970, entre os curdos, fundou-se o Partido dos Trabalhadores do Curdistão, reavivando o espírito da luta política, e os conflitos voltaram a agudizar-se perante a divergência de visões sobre os desígnios de um povo, e o recurso à força e à violência. O fundador e ideólogo do partido foi primeiramente obrigado a abandonar a Turquia e posteriormente preso pela Agência de Inteligência Turca em cooperação com outras congéneres, como a CIA. Öcalan foi condenado à morte, mas a sua sentença foi alterada pela extinção da pena de morte na Turquia, o que fez com que a condenação passasse a ser perpétua. Öcalan foi entre 1999 e 2009 o único preso na ilha de Imrali. Durante todo este período não cessou a sua actividade enquanto escritor, tendo desenvolvido no cárcere a ideia de futuro que defende para o seu povo, o confederalismo demorático. Foi já depois deste período que Abdullah foi protagonista de um acordo de paz com o Governo turco, antecipando uma nova era. “Que as armas sejam silenciadas e a política domine… uma nova porta está sendo aberta do processo de conflito armado para a democratização e a política democrática. Não é o fim. É o começo de uma nova era.”

O PKK em particular, e os curdos no geral, foram sempre uma pedra no sapato do poder nacionalista turco e da vontade de uma união nacional homogénea, funcionando paralelamente como uma espécie de bode expiatório para governos como o de Erdogan. Em 2015, os conflitos entre turcos e curdos voltaram a acicatar-se, com o exército turco levar a cabo uma série de operações anti-curdos que valeram até a atenção de intelectuais internacionais que num abaixo assinado pediram a atenção da comunidade internacional para as acções do estado Turco. Foi uma dessas investidas, à cidade de Nusaybin, habitada por uma grande comunidade de curdos, que Zehra retratara na pintura que lhe valera a sua primeira acusação e prisão.

Em 2016, após uma tentativa de golpe de estado na Turquia, foram vários os curdos que acabaram presos sob esse pretexto; sob a acusação de apoiarem a tentativa de deposição do regime, o golpe que ficou conhecido como Gulenista por pressupor o apoio e a inspiração do exilado pensador turco Fethullah Gülen, ou de pertencerem ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão entretanto ilegalizado, duas acusações que à luz da história recente aparentam alguma contradição.

Sobre Zehra recaíram as acusações de “propaganda terrorista” por posts nas redes sociais, o seu trabalho jornalístico e as suas pinturas, denunciando o ataque aos curdos feito pelo regime turco; em 2017 fora definitivamente presa antes de conseguir sair da Turquia.

Foi na prisão que Zehra passou os últimos 3 anos da sua vida, suspendendo as funções como jornalista que desempenhara cá fora, mas sem nunca estancar a veia artística que a leva a pintar o que vai sentindo. Durante os 3 anos presa continuou a pintar em todos os suportes que encontrava para o fazer, e depois de ser libertada expôs as peças que reflectem as sensações que viveu naquele tempo. Em 2017, o primeiro ano da sua prisão, o conceituado artista chinês Ai Weiwei chamou a atenção internacional para o seu caso, ao escrever uma sentida carta demonstrando a sua solidariedade.

Dentro da prisão, ou das várias prisões por que passou, Zehra não mudou o tom do discurso que exprime nas suas pinturas, mas fê-lo sob as condições de uma prisão e impedida de o mostrar – impedimento que contornou com audácia, tirando o que ia pintando da prisão como se de roupa suja se tratasse, valendo-se dos suportes que ia encontrado. Enfim em liberdade, Zehra viu-se obrigada a abandonar a Turquia, mas não levou logo consigo os seus trabalhos; em vez disso, expô-los numa galeria na capital, Istambul entre Outubro e Novembro deste ano. A exposição, de nome “Não visto”, teve espaço na galeria Kiraathane, e levou a público pela primeira vez as obras pintora, para além de jornalista, em solo turco.

A mesma experiência resultou também num livro feito da correspondência com Naz Öke, jornalista turca e Daniel Fleury, jornalista francês, do site Kedistan. E dará lugar em breve a um livro ilustrado cujos desenhos originais já foram exibidos em exposição

A obra de Zehra durante os tempos de prisão conta uma história de resistência e superação, não só concretamente ilustradas nas figuras que marcam os objectos, mas também implícita na forma como o fez. A artista teve de encontrar suportes para exprimir o seu trabalho – fazendo-o muitas vezes em peças de roupa – e meios para o fazer – criando pincéis arcaicos com cabelos e outros materiais a que tinha acesso para contraria a proibição de ter material artístico numa prisão.

DR / Zehra Doğan

Entre as prisões de Mardin, Tarsus e Diyarbakir, Zehra foi encontrando formas e forças para continuar a exprimir os seus estados de alma em pinturas com uma visível carga emocional. Como tintas usou café, cinza de cigarros e outros pigmentos que lhe surgiram à mão, como o açafrão ou outras especiarias comuns; como motivo das suas pinturas, manteve uma certa consistência. Figuras femininas em gestos de revolta, muitas vezes de boca aberta exprimindo gritos que a visceralidade dos trabalhos nos permitem mesmo ouvir, outras menstruando, como que representando a resistência natural do corpo da mulher a tentativas de neutralização, outras atrás de grades ou de braços atados, percorrem-se, agora em retrospectiva, como um diário fidedigno da sua resistência emocional.

A importância da mulher na sua obra ecoa também a importância da mulher para os curdos, e a sua reinterpretação criativa dos corpos, conferindo-lhes formas quase mitológicas, enunciando Shahmaran. A metade mulher metade cobra, Shahmaran, é, de resto, uma metáfora ajustada a uma leitura sobre a geopolítica local. A lenda, de origem persa, a avaliar pela sua etimologia, transversal a povos do Irão, do Iraque e da região da Anatólia, curdos e turcos, ilustra simbolicamente a riqueza histórica e étnica da região, de certo modo suprimida pelas políticas contemporâneas — assunto que merece destaque por exemplo na obra do colectivo artístico Slavs & Tatars no trabalho Who you callin’ a romanizer.

Na Turquia crê-se, na cultura popular, que Shahmaran vive perto da cidade mediterrânica de Tarsus, local de uma das prisões por onde passou Zehra. Também em Mardin, local de outra das prisões, a lenda se repete.

Şahmeran Zelal DR / Zehra Doğan (2016, Prisão de Diyarbakir)

Ao longo dos 3 anos, o trabalho da pintora foi absolutamente profícuo, e a sua leitura conta a história do que passou. E se em Mardin, em 2016, as pinturas soam a auto-retrato, com o passar do tempo as imagens vão-se tornando cada vez mais abstractas e viscerais, testemunhando um aparente cansaço, quase desesperante. Para além do trabalho de pintura, a artista também criou na prisão um momento de expressão editorial, editando, em parceria com as reclusas consigo presas, um jornal, em papel kraft, o Özgür Gündem Zindan.

Em 2017, já depois da primeira prisão, Zehra passara tempos na clandestinidade onde continuara a pintura, mantendo os motivos por esta altura trabalhados com mais cor. No mesmo ano voltara à prisão, desta feita a Diyarbakir. Entre 2017 e 2018, a exploração de Zehra explora mais caminhos diferentes. Durante este período, o jornal é um dos suportes mais comuns, e as figuras das suas pinturas diversificam-se. Em comum destaca-se, em quase todo o corpo de trabalho, o esgar triste dos olhos grandes dos personagens que fitam quem contempla cada pintura.

Em 2018, foi transferida para a prisão de Tarsus onde continuou a sua resistência. Neste tempo, destacam-se as obras feitas sobre os relatórios do tribunal, numa toada mais abstracta que já em Diyarbakir explorara. Foi nesta prisão que cumpriu os dias finais da sua sentença.

Depois disso, a artista tem continuado a pintar num tom que acabou por se demarcar no seu trabalho. Na mais recente série, em colaboração com o artista iraniano Mehdi Rajabian, Zehra ilustrou ao seu jeito cenários das guerras contemporâneas como as do Iémen, Síria, Iraque, Omã ou Palestina. A sua obra – e aqui incidimos apenas sobre os últimos 4 anos – é um artefacto artístico, forma de uma expressão individual louvável e, simultaneamente, a ilustração de um tempo de complexidade histórica e geopolítica difícil de inteligir. A sua obra exprime a revolta de uma grito oprimido, a melancolia de um olhar amendrontado mas, sobretudo, a verticalidade e a resistência de alguém convicto dos seus valores. Atrás das grades em Diarbakir, Zehra escrevia “Estou na prisão, mas não sou uma prisioneira. Todos os dias mostramos que a arte e o jornalismo não podem ser encarcerados. Continuamos a nossa luta e continuamos a dizer que ‘o jornalismo não é um crime’ até que todos os jornalistas estejam livres”; a obra que criou durante este tempo é o testemunho da impossibilidade de prender as ideias e os sentimentos que dela fazem uma jornalista e uma artista.

DR / Zehra Doğan

A obra completa da artista pode ser consultada aqui.

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