Imagens, letras e sons de uma pandemia

Um ensaio sobre a pandemia de Covid-19. Uma viagem de palavras e sons pelo mundo sem sair de casa.

GIF por João Ribeiro/Shifter
 
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Imagens

O nosso lugar, o mundo, desde dezembro de dois mil e dezanove, tornou-se bastante incomum. Desorganizou a nossa agenda e o nossa vida interior. Ironicamente, confinou-nos ao nosso lugar mais comum: a casa. Para aqueles que, afortunadamente, a têm. Mas, de repente, até a nossa casa se torna um corpo estranho, como quando dizemos o nosso nome repetidas vezes ou nos olhamos demoradamente ao espelho. Olharmos assim para a nossa casa é, no fundo, olharmos também um pouco para nós mesmos.

Há uma condensação da nossa existência e da nossa experiência que nos aborrece e, potencialmente, angustia. Escreve Gaston Bachelard, na Poética do Espaço, que examinada nos seus horizontes teóricos mais diversos, a imagem da casa se transforma na topografia do nosso ser mais íntimo” – uma imagem a valer mais que mil palavras. E esta imagem traz tanto imagens dispersas, como um corpo de imagens, porque não é tanto a casa nas suas dimensões geométricas de que falamos, mas aquilo que somamos do que somos à casa que habitamos.

Tendemos a associar a ideia de casa à ideia de abrigo, porque reunimos as lembranças, mais ou menos adumbradas, das vezes em que encontrámos segurança ou intimidade num espaço a que atribuímos esse ente. Como quando, após um dia de tempestade, em que, por negligência ou excesso de fé em S. Pedro, decidimos deixar o guarda-chuva e a gabardina no bengaleiro, e só no regresso a casa, ensopados, é que nos sentimos sãos e secos. Tal é a nossa bachelardiana capacidade intuitiva de construirmos relações com o lugar, através da formação de memórias das várias categorias de espaço.

A casa é a chave para um Eu interior que nos remete, quase sempre, à infância. As nossas memórias mais tenras são sempre fragmentos do lar, não raras vezes sob forma de ícones ou pequenos palcos de eventos mais petulantes. Se criamos esse vínculo ao definir uma fronteira e ao chamar nosso a esse território, é importante preservarmos a metáfora. Mas o que acontece quando a casa se transforma em prisão domiciliária? Um lugar acumula memórias e, se estas se tornam nefastas, a ideia desse lugar sofre mutação.

Um artigo da Lancet, acerca do impacto psicológico da quarentena, indica que a maioria dos estudos revelam, nas amostras populacionais, sintomas de stress pós-traumático, confusão e raiva. Os fatores que desencadeiam estes sintomas são, sobretudo, a extensão da quarentena e a incerteza quanto à sua duração, o medo da infeção – um sentimento quase latente mas de presença ubíqua – frustração e tédio, entre outros fatores durante e pós período de isolamento. Esta conjugação de causas e consequências reflete-se, até, nos nossos sonhos.

Comecei a ter vários e vívidos pesadelos e tive curiosidade em perceber de que forma isto poderia estar relacionado com o movimento do mundo. Depressa percebi que não estava sozinho, ao dar fé de grupos de pessoas a fazer, de meios digitais, repositórios de sonhos. Na verdade, o sonho é um mecanismo pelo qual o cérebro recicla os eventos emocionais, sendo que as áreas cerebrais responsáveis por essa função estão 30% mais ativas. As razões mais plausíveis para que os sonhos sejam extraordinariamente indeléveis estão relacionadas com o aumento das horas de sono (estamos a dormir como reformados), a alteração drástica da rotina mas, sobretudo, a uma ansiedade global, resultante da alteração súbita das dinâmicas social e política, bem como da quantidade de tragédia que nos assola pelos ecrãs. O sentimento de claustrofobia a que estamos vulneráveis deve ser suprido ao alargar as fronteiras invisíveis da ideia de casa. Tal condição exige de nós imaginação e criatividade, uma capacidade de ver, na casa, o cosmos, como o foi primordialmente; e associar, a esse corpo de imagens, outras, novas e belas – ver esta experiência como oportunidade de auto-descoberta.

Letras

Conquanto pudesse acabar agora a minha reflexão, a inquietação das minhas leituras e pesquisas fizeram com que o lugar comum, que deu o mote a este ensaio, se desdobrasse em dois lugares incomuns. O primeiro: doze letras valem mais que mil palavras. Este lugar remete à génese, ao foco do problema. Mas para lá chegarmos precisamos de, à maneira da cebola, ir retirando as várias camadas que se foram formando – prossigamos com o método. Facilmente se dá azo a uma série de teorias da conspiração, a enviesamentos raciais e a narrativas prolixas que demonizam a globalização e o capitalismo – estas que são, aliás, as principais responsáveis por teorias reducionistas da chamada Escola da Suspeita, para usar a expressão emprestada de Paul Ricœur. Além de que, a partir deste prisma, podemos encontrar vários outros aspetos positivos e exaltar as virtudes da técnica, a causa desta calamidade é, essencialmente, biológica e é necessário, primeiro, entender a raiz do problema, quais são as falhas de origem. Talvez, assim, tenhamos uma compreensão mais moderada, real e objetiva que não está implicitamente ligada a ideologias políticas, mas sim a uma dimensão mais profunda da essência do ser humano. Isso não impede de que, ao lidar com factos, não venham à tona algumas das ameaças mais prementes à democracia por parte de alguns regimes.

Houve uma tentativa clara de abafamento das notícias relacionadas com este vírus numa fase inicial. Uma das figuras mais mediáticas foi o médico Li Wenliang, um herói nacional em ascensão que, em dezembro de 2019, foi silenciado, investigado pela polícia e acusado de “espalhar rumores”, quando previu e alertou por meio digital os seus colegas para uma ameaça global de um novo vírus. Morreu a 6 de fevereiro deste ano, aos 34 anos, em mórbida ironia, vítima da mesma Covid-19 que previu. Outro rosto da resistência é a médica Ai Fen, que viu substituídos por eufemismos os diagnósticos que fez aos primeiros doentes associados à pandemia no hospital onde trabalha(va). Está, até à data, desaparecida. Estes são dois símbolos da opacidade e secretismo opressor com que Pequim lidou na fase inicial do surto, o que resultou num atraso de semanas para a resolução do problema, no impedimento de resposta médica aos infetados e na morte perfeitamente evitável de vários habitantes da região.

Outro alvo de celeuma foi a atuação da Organização Mundial de Saúde face à pandemia. O que desencadeou esta discussão foi a medida populista de Donald Trump em retirar o apoio financeiro dos EUA à organização, este que é o maior contribuidor (dez vezes mais que a China). Esta foi apenas uma ameaça e nada indica que vá avante, pois nem é seguro que o possa fazer sem autorização do congresso. De qualquer das formas, o instinto e, de resto, a resposta do Partido Democrático, foi simplificar a questão e interpretar esta atitude como artifício de Trump, na tentativa de se desresponsabilizar da forma displicente como tem combatido a pandemia. E esta não é uma explicação absurda, atendendo a que as eleições presidenciais dos EUA serão já em novembro e o protagonismo é a prioridade de Trump, além de ser essa a estratégia que tem adotado sistematicamente – elencar bodes expiatórios, a fim de se purgar dos seus males.

Mas o caso da OMS não é mero aproveitamento político. Houve, de facto, sérios e graves erros de gestão e direção. O mais flagrante passou-se no dia 14 de janeiro, quando a OMS anunciou via Twitter que as investigações levadas a cabo pelos chineses permitiam concluir que o coronavírus não se transmitia de pessoa para pessoa, informação que nem a China assumia. Precisamente no dia, como revelou a Associated Press, em que as autoridades chinesas (presidente e primeiro-ministro inclusive) já estavam a par da eventualidade de uma crise pandémica mundial, classificando a situação, em documentos internos, como grave e complexa, o mais grave desafio desde a SARS em 2003, com grande probabilidade de se tornar um acontecimento de saúde pública de maior importância”.

Seis dias depois, quando a China estava em reboliço devido ao Ano Novo Chinês, é que foi desmentida a afirmação. Por essa altura, já centenas de milhões de pessoas tinham viajado por toda a China, só nesse dia, e pelo menos sete milhões de pessoas saíram de Wuhan – epicentro da pandemia – no mês de janeiro. Ainda assim, a OMS continuou a assegurar que eram seguros os voos para o território chinês e, a 28 de janeiro, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, viajou até Pequim para se encontrar pessoalmente com o presidente e louvou, em rasgados elogios, a atuação da China na contenção do vírus. Tedros Adhanom foi eleito graças a uma coligação organizada pela China, o que muito explica este tom submisso.

Só quando a situação já era manifestamente alarmante e irreversível, é que a OMS avançou para declarar a Covid-19 uma pandemia. A ordem de acontecimentos na divulgação do avanço da situação epidémica indicia que a OMS se comportou como um títere nas mãos de Xi Jinping. Pois, se a China, devido à autocracia por que rege o seu território, permitiu a rápida contenção da pandemia, também é verdade que permitiu uma ainda mais rápida aceleração da mesma, dentro e fora de fronteiras. Por outro lado, esta não é a altura de criticar as instituições internacionais que representam uma herança da paz conseguida no pós-Guerra, mas é de extrema importância não deixar que essas mesmas instituições caiam nas mãos de líderes corruptos, interesseiros e anti-democráticos.

Ao levantar esta camada, encontramos outra mais nuclear – de como terá sido a origem da infeção. vários estudos e publicações científicas associavam a desflorestação e perdas de habitats ao aumento de doenças por infeção zoonótica, resultante da crescente proximidade entre humanos e animais. Em março de 2019, foi publicado um estudo, por um grupo de cientistas chineses, que alertava para o risco de futuros surtos de doenças por coronavírus provenientes dos morcegos. Nos últimos vinte anos, já três coronavírus zoonóticos tinham sido a causa de três grandes surtos, a saber, a Síndrome Respiratória Aguda Grave (já referida SARS) em 2003, a Síndrome Respiratória do Médio Oriente (MERS) em 2012 e a Síndrome de Diarreia Aguda Suína (SADS) em 2017. Todos eram patogénicos para humanos, provocados por morcegos e dois deles provenientes da China.

Apesar do estudo defender que a probabilidade de CoV atingir humanos era limitada, não subestimava a sua enorme capacidade de transformação, provada pela grande variedade de CoVs só nos morcegos, i.e., dentro da mesma espécie, que seria capaz de gerar um vírus de potencial pandémico. Era ainda referido que a maioria de morcegos portadores de CoVs tinham o seu habitat próximo dos humanos, o que traria enorme risco de transmissão a estes e a gado de corte. Acrescia o facto da cultura gastronómica chinesa ter o preceito de que carnes recém abatidas são mais nutritivas e tal crença poder aumentar o risco de transmissão.

Por volta de 12 de dezembro de 2019, sem surpresa, foi detetado o SARS-CoV2 – novo Coronavírus – em humanos. Os primeiros casos conhecidos de portadores do vírus juntaram-se em torno de um mercado de frutos do mar, em Wuhan, a maior cidade da região de Huanan. Com cerca de onze milhões de habitantes, com uma rede de transportes de grandes proporções e enorme movimentação e na infeliz coincidência com a época festiva em que o país se encontrava, o vírus propagou-se prolificamente. A responsabilidade, pelo que enfatiza a cientista Kate Elizabeth Jones, não recai sobre os morcegos, mas sobre nós. Estamos a reconfigurar (ou desfigurar) as paisagens e as dinâmicas entre a vida humana e a animal, ao misturar várias espécies em mercados de animais selvagens, o que proporciona a fecunda combinação de vírus e nos torna vulneráveis a agentes patogénicos.

Removemos mais uma camada, mas depressa nos apercebemos de outra ainda – de como é que o vírus se apoderou da nossa fisiologia. À medida que nos aproximamos do núcleo da questão, também nos aproximamos do núcleo celular. O coronavírus, ou SARS-CoV-2, a fim de se apoderar da maquinaria da célula, depois de fundir a sua membrana lipídica com a da célula infetada, lança um fragmento de RNA que contém todo o seu material genético. Inicia-se, então, um processo de síntese proteica, em que a célula infetada se torna subserviente do vírus, lendo a sua informação – o vírus é o poeta, a célula é o trovador, se quisermos – a fim de se reproduzir. De um homem de 41 anos, que trabalhava no mercado de Huanan, Wuhan, foi recolhida uma amostra do genoma deste vírus. Tem o tamanho de mais de 28000 letras genéticas (nucleótidos, a saber, Adenina, Citosina, Guanina e Uracilo), o que é um texto curto quando comparado com o de cerca de 3 biliões de letras do nosso genoma. Mas basta este telegrama para que 29 proteínas, as que constituem o vírus, se materializem.

Dividem-se em três categorias: as NSP (non-sctrutural proteins), as estruturais e as acessórias. Para a maioria, conhece-se a sua função. Por exemplo, a NSP3 e a NSP5 atuam como tesouras, seccionam a sequência de RNA durante a síntese para que as restantes proteínas possam executar com eficácia as suas tarefas. Mas há outras que têm funções tão fascinantes quanto terríveis: a NSP1 (sabotadora celular) reduz o ritmo de produção de proteínas da célula infetada, nomeadamente as antivirais; a NSP10 (camuflagem genética) é especializada em mimetizar RNA viral, para evitar proteínas antivirais, produzidas pelo nosso organismo, capazes de o despedaçar; uma proteína acessória, a ORF3a (artista de escape) rompe a membrana da célula, permitindo que novas cópias do vírus escapem, além de desencadearem uma infeção que é o sintoma que está na base da doença provocada pelo vírus – a Covid-19; outras há ainda que, pelo desconhecimento da sua praticidade, são apelidadas de mystery proteins. Mas a mais importante, e que está no foco da maioria das investigações, pois é a partir dela que será possível desenvolver uma vacina capaz de bloquear a infeção das células humanas, é a spike protein, ou proteína de espícula. Esta é uma das proteínas estruturais e que deu nome ao vírus, pelo aspeto de coroas que figuram na sua superfície. Ao encontrar uma célula humana favorável, estas estruturas conseguem estender-se e agarra-se à proteína ACE2, presente nas células da via respiratória. Já existiam outros SARS, mas o SARS-CoV-2 diferencia-se por ter uma asserção genética na spike protein, que lhe permite uma maior adesão às células humanas. Essa foi uma mutação essencial, de um vírus que começou por infetar morcegos, entre outras espécies. Se agora nos afastarmos com distância metafísica, não podemos deixar de nos espantar – ccucggcgggca – doze letras apenas, que mudaram o rumo da humanidade, que revelam o quão indefesos somos enquanto espécie. Que nos tiram as mil palavras da boca.

Sons

Por fim, questionemos: poderíamos, porventura, arranjar um método de converter imagens e palavras em som? Transformar matéria em algo audível? Este processo existe e tem um termo técnico: sonificação. É, numa acepção simples, a representação de dados através de som não falado. Uma área com poucas décadas de existência, mas que se tem mostrado promissora e realmente útil. Durante este período de quarentena, comecei a desenvolver um processo razoavelmente simples de sonificação do genoma do SARS-CoV-2. O critério foi associar cada uma das bases proteicas que compõem a sequência de RNA a uma nota musical ou pausa, tal que C = Dó, A = Lá, G = Sol e U = pausa. A última letra não tem correspondência com a notação anglófona, pelo que tive de optar por um critério alternativo que traria interesse musical ao resultado final e não comprometesse a coerência do pensamento composicional. Seccionei o genoma pelos limites que dão origem às diferentes proteínas do vírus.

O resultado final será uma peça para teclado e computador, em que o performer interage com o genoma do novo coronavírus, mas tendo de se adaptar aos vários comportamentos das diferentes proteínas, como reações imunitárias para a sobrevivência da linguagem musical. Este é um exemplo do potencial estético da sonificação. Mas, na verdade, a sonificação pode ser usada como instrumento na investigação. Markus J. Buehler, professor de engenharia no MIT e compositor versátil, com uma equipa de investigadores, desenvolveu um brilhante método de sonificação que traduz sequências de aminoácidos em composições musicais, com aplicação em design de proteínas recorrendo a inteligência artificial. O seu trabalho mais recente foi a composição de um contraponto viral da spike protein, presente no coronavirus. O método, de forma sucinta quanto possível, parte do cálculo das frequências de vibração das moléculas que compõem as proteínas. As proteínas são compostas por 20 aminoácidos base que resultam da síntese proteica. 

Quantos mais núcleos, mais modos de vibração tem a molécula, ou seja, mais degraus de liberdade. Essa grandeza também é proporcional à densidade da molécula (quociente da massa com o volume). Quando uma molécula tem mais modos de vibração, mais rico é o seu espectro de frequências. Cada aminoácido, pelos modos de vibração singulares, tem um espectro único e, consequentemente, um som de identidade, um cluster de múltiplas frequências, o correspondente a um acorde, na linguagem musical. Esta tradução tem a vantagem de as frequências a que os aminoácidos vibram pertencerem ao espectro de audição humano, logo a conversão é direta. As notas desses acordes são integradas, algoritmicamente, num contexto de escala musical ocidental num sistema de 12 tons, para que haja um arredondamento das frequências de notas que se localizam entre teclas do piano e se defina a escala musical a que melhor se adequa determinado acorde – Buehler chama a isto amino acid scales”.

As proteínas têm quatro estruturas hierárquicas, que passam uma simples sequência linear de aminoácidos à formação de, neste caso, espirais que, por sua vez, devido à sua natureza anfipática (de domínios polares e polares ou hidrofílicos e hidrofóbicos) assumem novas configurações que, por fim, podem se agrupar em múltiplas cadeias polipeptídicas que dão origem a uma proteína quaternária funcional. Esta é uma linguagem biológica muito complexa e que nós ainda não dominamos, daí este processo se revelar promissor. Este empreendimento, daí a sua relevância, não se fica pela tradução da sequência de aminoácidos, é preciso traduzir, de igual modo, o enovelamento da proteína. Para estruturas locais, é usado o ritmo e para o enovelamento são usados elementos mais complexos da composição musical, como melodias sobrepostas (contraponto), acordes dedilhados, entre outros recursos expressivos. A spike protein é composta por três cadeias de proteínas dobradas num padrão que o investigador adjectiva de “intrigante”. Estas cadeias emaranhadas são representadas melodias “entrelaçadas” que formam um complexo contraponto. Assim, é possível representar musicalmente a plenitude da proteína, com todas as suas características, desde o material que a compõe até aos padrões de vibração, tudo organizado numa escala temporal, possibilitando a análise de uma estrutura que é impossível de ver, mas fácil de ouvir. Buehler afirma que esta composição tem impacto a longo prazo na solução para o desenvolvimento de uma vacina.

A sonificação dá uma nova ferramenta para compreender e modelar proteínas. Basta uma pequena mutação para que o poder patogénico do vírus diminua ou aumente, como vimos nas doze letras. Por este processo é possível comparar o resultado sonoro da spike do SARS-CoV-2 com a spike do SARS ou do MERS. A compreensão dos padrões vibracionais da proteína é essencial para a criação de medicamentos, padrões esses que variam com a temperatura do corpo (como febre) e que podem explicar o porquê deste vírus ter maior atração às células que outros. Temos uma capacidade extraordinária de processamento de som. Conseguimos, mais rápido que a nossa própria perceção, assimilar e descriminar as várias características do som. É uma vantagem em relação à imagem, na qual não conseguimos detetar todos os detalhes de uma vez só. Em suma, os mais recentes progressos na área da investigação deste vírus levam-nos a asseverar que – e, assim, rematando com o segundo lugar incomum – um som pode valer mais do que mil imagens.

Texto de Jónatas Pereira

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